Crédito Empresarial

Antes de pedir crédito, perceba o que está a dar em garantia

O crédito não é bom nem mau: é uma ferramenta com preço, prazo e garantia. O que separa o crédito que faz a empresa crescer do crédito que a estrangula quase nunca é a taxa: é a estrutura, e é a honestidade sobre o motivo real pelo qual precisa dele. Este texto explica o mecanismo, para que consiga ler uma proposta sozinho.

O buraco entre pagar e receber
01O buraco entre pagar e receber
Recebíveis: o dinheiro já é seu, só ainda não chegou
02Recebíveis: o dinheiro já é seu, só ainda não chegou
Operação desenhada, não escolhida do cardápio
03Operação desenhada, não escolhida do cardápio

Quando isto se torna um problema

  • O limite da conta caucionada nunca mais zerou. Deixou de ser um socorro pontual e passou a ser capital de longo prazo contratado com juros de curto prazo. É uma das dívidas mais caras que uma empresa carrega, e uma das que menos se veem.
  • Antecipa recebíveis todos os meses para fechar a folha de salários. A tesouraria fecha, mas o mês seguinte começa mais pequeno: parte da sua margem já foi consumida antes de a venda existir.
  • Contratou uma linha rápida, com o dinheiro na conta em 24 horas, e não olhou para a garantia. Descobriu depois que o seu aval e o da sua esposa lá estão, e que o imóvel da família entrou na conversa.
  • O crédito entrou para cobrir prejuízo operacional, não para financiar crescimento. Adiou o problema seis meses e devolveu-o maior, agora com juros.

Como funciona na prática

Fundo de maneio: o dinheiro que tapa o buraco entre pagar e receber

Toda a empresa tem um intervalo entre o dia em que paga ao fornecedor e o dia em que o cliente lhe paga a si. Esse intervalo é o ciclo de caixa, e tem de ser financiado por alguém: pelo sócio, pelo fornecedor ou pelo banco. O capital de giro (crédito de fundo de maneio) serve para financiar esse intervalo. Costuma vir em prazo curto e formato rotativo, com ou sem garantia. Se vem «limpo», sem garantia real, o banco cobra mais caro porque, em caso de incumprimento, não tem para onde correr além do processo judicial, e isso está embutido na taxa. É a linha mais fácil de contratar e a mais fácil de usar mal, porque não obriga ninguém a explicar para onde foi o dinheiro.

Antecipação de recebíveis: não vai buscar dinheiro, adianta o seu

Aqui não entra dinheiro novo na sua estrutura de capital: troca um recebível a 60 dias por caixa hoje, com desconto. O custo é a taxa de desconto aplicada sobre o prazo remanescente, e existe mesmo quando ninguém lhe chama juros. Dois pormenores mudam tudo. Primeiro, a coobrigação: em boa parte das operações de desconto de duplicata (título de crédito comercial brasileiro) o contrato prevê coobrigação, ou seja, se o seu cliente não paga, quem paga é o próprio. O risco de crédito do sacado continua consigo. Isto não é padrão automático: está escrito no contrato, e é aí que o verificamos. Segundo, o vício: antecipar uma vez para aproveitar um desconto de fornecedor é gestão; antecipar todos os meses para fechar a folha significa que a sua margem está a financiar o banco, não a empresa.

Crédito com garantia de imóvel (home equity): porque é que o custo tende a descer

No crédito com garantia de imóvel, o bem vai para alienação fiduciária: a propriedade fica resolúvel em nome do credor até à liquidação da dívida. O rito de execução desta garantia é mais rápido do que o judicial e, do ponto de vista do banco, a perda esperada em caso de incumprimento tende a ser menor. É por isso que esta linha costuma vir com spread mais baixo e prazo mais longo do que uma linha sem garantia. Não é regra: o preço e o prazo continuam a ser definidos pelo banco, caso a caso. Não está a ser premiado por ser bom pagador; está a trocar risco por preço. Duas consequências práticas: o processo é lento (avaliação, análise jurídica, cartório, registo), pelo que não serve para uma emergência; e o imóvel pertence normalmente à pessoa singular do sócio, o que coloca o património da família dentro do risco da operação.

Crédito por medida: quando a operação é desenhada, não escolhida do cardápio

Estruturado não quer dizer sofisticado por desporto. Quer dizer que o fluxo da dívida foi desenhado para caber no fluxo do negócio: carência que respeita a safra ou a obra, prazo que acompanha o retorno do ativo, cessão fiduciária de recebíveis de um contrato específico, garantia real, cláusulas e covenants (obrigações que o devedor se compromete a cumprir, como manter um nível de endividamento, sob pena de vencimento antecipado). O ganho é o encaixe. O preço é a complexidade: custa mais a montar, demora mais, e o contrato passa a mandar em decisões suas durante anos. Faz sentido quando o valor e o prazo justificam o trabalho. Não faz para tapar um mau mês.

O que eu faço por si

  • Mapeio o seu ciclo de caixa antes de falar em crédito: quanto tempo o dinheiro fica parado entre pagar ao fornecedor e receber do cliente, e que buraco a operação precisa de cobrir de verdade.
  • Separo o que é alavanca do que é sintoma. Se a necessidade é recorrente e nunca zera, isso fica claro na conversa, mesmo que signifique não fazer operação nenhuma.
  • Traduzo a proposta linha a linha: taxa, IOF (imposto brasileiro sobre operações financeiras), tarifas, CET (custo efetivo total), prazo, carência, garantia exigida, coobrigação e o que dispara o vencimento antecipado. Assina a perceber o que assina.
  • Estruturo o desenho da operação em conjunto com as mesas de crédito do BTG e apresento as alternativas possíveis para o seu caso: capital de giro, antecipação, garantia real ou estrutura por medida.
  • Olho para o efeito no seu património pessoal: o que o aval e a alienação fiduciária travam do seu lado enquanto pessoa singular, e o que isso limita nas suas próximas decisões.
  • Comparo com o custo de não fazer: usar caixa próprio, negociar prazo com fornecedores ou aportar como sócio também são opções, e por vezes são melhores.

O que o crédito não resolve

O crédito compra tempo. Não conserta margem. Se cada venda sai com resultado negativo, dinheiro novo só faz a empresa errar mais depressa e com mais juros. Também não existe garantia grátis: cada garantia que reduz o seu custo transfere para dentro da operação um risco que é seu: o imóvel, o recebível, o seu nome. E eu não aprovo crédito nem giro o seu caixa. Quem decide preço, limite e garantia é o banco, dentro dos critérios dele. O meu papel é que chegue a essa mesa a perceber os seus próprios números e saia de lá a saber exatamente o que assinou.

Perguntas frequentes

Antecipar recebíveis é dívida?

Contabilisticamente costuma aparecer como operação de crédito e, no bolso, funciona como tal. Recebe hoje um valor inferior ao que receberia mais à frente: a diferença é o custo. E, se a operação tem coobrigação, o risco continua consigo: se o cliente não pagar ao banco, o banco cobra à sua empresa. A pergunta certa não é «é dívida?», é «quanto custa este dinheiro adiantado e o que faço com ele que renda mais do que isso?».

Porque é que o banco pede o meu aval se a empresa é de responsabilidade limitada?

Porque o aval é precisamente o instrumento que atravessa essa separação. Em regra, a limitação de responsabilidade opera na relação societária. Não alcança uma garantia pessoal que o sócio assinou por vontade própria, em contrato separado. O alcance exato de cada aval depende do que lá está escrito e é assunto para o seu advogado. Ao assinar o aval, o sócio coloca-se ao lado da empresa naquela dívida específica. É uma escolha, e tem preço: em troca, o banco vê menos risco e o spread tende a descer. O que eu faço é tornar essa troca explícita antes, não depois.

Vale a pena dar o meu imóvel em garantia?

Depende do que o dinheiro vai fazer e do peso que o imóvel tem na sua vida. A garantia real costuma ser o caminho para prazos longos e custo mais baixo, porque reduz a perda esperada do credor. Mas concentra risco: se o plano não correr como previsto, o ativo que estava fora do jogo entra nele. Um imóvel operacional, o imóvel de habitação da família e um imóvel de rendimento que se consegue repor não são a mesma coisa. Essa conversa vem antes da taxa.

Consegue uma taxa melhor do que a do meu gestor de conta?

Não prometo taxa: quem define o preço é o banco, olhando para o risco da sua empresa, a garantia e o prazo. O que eu faço é diferente: organizo a informação para que o risco seja lido corretamente, desenho a operação em conjunto com as mesas do BTG e comparo alternativas em vez de aceitar a primeira proposta. Por vezes, um melhor preço resulta daí. Mas o maior ganho costuma ser não fazer a operação errada.

Antes de assinar, vamos olhar para o caixa

Envie-me um resumo do seu ciclo de caixa e das dívidas que já existem. A primeira conversa é um diagnóstico, sem custo e sem compromisso, e por vezes termina com «não precisa deste crédito».