Câmbio & Comércio Externo

Fecha a encomenda com uma margem. E recebe outra.

Entre o dia em que define o preço e o dia em que o dinheiro entra ou sai, existe um intervalo. Nesse intervalo pode mudar uma parte relevante do resultado da encomenda: parte na variação da moeda, parte em custos que nem sempre são abertamente discutidos. Passei mais de dez anos em logística, indústria e comércio externo antes de me tornar assessor: conheço esse intervalo por dentro.

A operação começa no porto, não na mesa do banco
01A operação começa no porto, não na mesa do banco
Taxa cheia: a diferença aparece quando se abre a conta
02Taxa cheia: a diferença aparece quando se abre a conta
Fixar a taxa é decisão de tesouraria, não palpite sobre o dólar
03Fixar a taxa é decisão de tesouraria, não palpite sobre o dólar

Quando isto se torna um problema

  • Cotou o produto com o dólar de um dia, o embarque atrasou três semanas e a margem da encomenda passou a ser outra, sem que nada tenha mudado na operação, no fornecedor ou no preço de venda.
  • Fecha câmbio ao telefone, ouve uma taxa, acha-a razoável e nunca a compara com a referência de mercado desse momento. O custo existe, só não vê onde está.
  • Exporta, o pagamento chega a 90 ou 180 dias, mas o salário, a matéria-prima e o imposto vencem agora, e a alternativa que surge é crédito de fundo de maneio em reais, ao custo do fundo de maneio em reais.
  • A sua empresa tem receita em moeda estrangeira e dívida em real (ou o contrário), e ninguém nunca se sentou para olhar para esse desfasamento como um todo. Cada operação é decidida isoladamente, ao sabor do dia.

Como funciona na prática

A diferença entre a taxa do banco e a do Banco Central: o custo que ninguém mostra

A PTAX (a taxa de câmbio de referência do Banco Central) é divulgada pelo Banco Central do Brasil e apurada a partir de consultas ao mercado ao longo do dia. Não é a taxa que a sua empresa fecha: é o termómetro. A taxa que fecha vem com um spread: a diferença entre a referência de mercado e o preço que a instituição lhe oferece. Esse spread é a remuneração de quem opera, e é perfeitamente legítimo. O problema é quando nunca é discutido. Comparar a taxa fechada com a referência do mesmo horário transforma uma conversa de «achei boa» em número. É a diferença entre negociar e aceitar. Calcule o spread da sua última operação face à PTAX do dia →

Taxa cheia (VET): a única que interessa

VET quer dizer Valor Efetivo Total. É o custo da operação inteira (taxa de câmbio, comissões e impostos) expresso como uma taxa única por unidade de moeda. Serve exatamente para impedir a cena clássica: uma taxa bonita à frente e, atrás, um IOF (imposto brasileiro sobre operações financeiras), uma comissão de transferência e um custo de praça. O VET é a forma padronizada de expressar esse custo total. Peça o VET por escrito antes de fechar: é uma informação que raramente surge sozinha na conversa. Duas cotações só são comparáveis pelo VET. E lembre-se: a tributação sobre o câmbio varia consoante a natureza da operação e muda ao longo do tempo. Vale sempre confirmar o que está em vigor na data, não o que vigorava no ano passado.

Adiantamento de câmbio (ACC e ACE): o que é de facto

ACC é Adiantamento sobre Contrato de Câmbio. O exportador fecha o contrato de câmbio antes do embarque e recebe os reais adiantados, ou seja, antecipa hoje um dinheiro que só entraria mais tarde, com base numa encomenda que ainda vai embarcar. ACE é Adiantamento sobre Cambiais Entregues: a mesma lógica, mas depois do embarque, quando os documentos já foram entregues ao banco e se aguarda o pagamento do importador. Ambos são crédito, com custo indexado a moeda estrangeira, e tendem a funcionar como financiamento de exportação, não como um financiamento de tesouraria comum em reais. Ao fechar o contrato, define também a taxa: a encomenda deixa de flutuar. É por isso que ACC e ACE são, ao mesmo tempo, ferramenta de tesouraria e ferramenta de risco.

Fixar a taxa não é palpite sobre o dólar

Aqui está o mal-entendido mais comum do tema. Quem fixa a taxa não está a apostar que a moeda vai subir ou descer: está a eliminar a moeda da conta. A aposta direcional é o contrário: é ficar exposto sem ter decidido ficar. O ponto de partida é sempre o desfasamento: quanto entra e sai em moeda estrangeira, e em que datas. Boa parte dele, por vezes, resolve-se sozinha (receita em dólares contra custo em dólares é cobertura natural, e não exige contratar nenhum instrumento). O que sobra pode ser tratado com instrumentos como o contrato a prazo sem entrega física, o NDF, que liquida apenas a diferença entre a taxa fixada e a referência na data, ou com contratos de futuros em bolsa, que são padronizados e têm ajuste diário, ou seja, mexem na sua tesouraria antes do vencimento. Cada um tem uma consequência diferente na tesouraria e na contabilidade. Qual faz sentido depende da sua operação, do prazo e da dimensão, não de uma opinião sobre o câmbio.

O que faço por si

  • Mapeio o desfasamento real da sua empresa: entradas e saídas em moeda estrangeira, prazos e datas, antes de falar de qualquer produto.
  • Traduzo a cotação para VET e comparo a taxa fechada com a referência de mercado, para que veja o custo em número, não em impressão.
  • Explico ACC, ACE e as alternativas de hedge com as contas do seu caso: custo, efeito na tesouraria e o que cada um deixa por resolver.
  • Ponho-o em contacto com a estrutura de câmbio e comércio externo do BTG Pactual e acompanho a operação de perto, do fecho à liquidação.
  • Fico do seu lado na hora de negociar o spread e as comissões: cotação sem comparação é preço aceite, não preço negociado.
  • Organizo uma rotina: quem decide, quando se fixa e com base em quê. Câmbio decidido no sobressalto do dia tende a sair mais caro do que câmbio decidido com uma regra definida antes.

O que a cobertura cambial (hedge) não faz

A cobertura cambial não melhora a sua margem: congela a que já tem. Se a moeda se mover a seu favor depois de fixar a taxa, não captura esse ganho: isso não é um defeito, é exatamente o preço da previsibilidade. Também tem custo, e alguns instrumentos consomem tesouraria antes do vencimento. E ACC e ACE são dívida, não receita: se o embarque não acontece ou o importador não paga, o adiantamento continua lá, com encargos e efeitos que têm de ser tratados. Nada disto corrige um preço mal formado, um fornecedor errado ou uma encomenda sem margem na origem. O câmbio protege uma operação saudável; não salva uma operação torta. E não sou despachante nem gabinete fiscal; quando o assunto é alfândega ou um imposto específico, o certo é chamar quem trata disso.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença prática entre ACC e ACE?

O marco é o embarque. No ACC, recebe os reais adiantados antes de a mercadoria embarcar, com base no contrato de câmbio de exportação já fechado. No ACE, o embarque já ocorreu e os documentos foram entregues ao banco: antecipa enquanto aguarda o pagamento do importador no estrangeiro. Na prática, os dois podem surgir em sequência dentro do mesmo ciclo. O que muda é o momento, o prazo e o risco envolvido em cada etapa.

A minha empresa é pequena. Faz sentido pensar em hedge?

O tamanho não define. O que define é o desfasamento: se a sua margem depende de uma moeda que não controla, o risco existe da mesma forma. Em operações menores, por vezes a resposta certa é nenhum instrumento: é ajustar o prazo de pagamento, casar entradas e saídas ou renegociar a data de fecho. Isso também é gestão de risco, e não depende de contratar instrumento nenhum. Prefiro dizê-lo a empurrar um contrato.

Porque é que a taxa que me oferecem nunca é a PTAX?

Porque a PTAX é referência, não preço de balcão. É apurada a partir de consultas ao mercado e divulgada pelo Banco Central; a taxa da sua operação inclui o spread da instituição, além de comissões e impostos. Isso faz parte do funcionamento normal do mercado cambial. O que não é normal é nunca saber de quanto foi. Peça o VET e compare com a referência do mesmo horário. A conversa muda de tom de imediato.

Opera o câmbio da minha empresa?

Não. Sou assessor de investimentos vinculado à GWM Investments, escritório credenciado junto do BTG Pactual, e não giro nem tenho à guarda o dinheiro de ninguém. Os recursos e as operações ficam no BTG, no CNPJ (número de identificação fiscal das empresas no Brasil) da sua empresa. O que faço é perceber a sua operação, explicar o mecanismo em português, preparar a conversa com a mesa de operações e acompanhar. Quem decide é o próprio, com a informação na mão.

Vamos olhar para o seu câmbio com números à frente

Traga uma encomenda real: data de fecho, prazo, moeda e a última taxa que lhe ofereceram. Numa conversa de diagnóstico, sem custo, mostro-lhe onde está o custo e o que se pode fazer em relação a ele.